Importante ponto da mensagem cristã é o referente à substancial igualdade e valor de cada ser humano.

Esta igual dignidade de cada pessoa está na base da ética cristã de amor a todos, e não apenas a amigos, familiares e compatriotas. “Tendes ouvido o que foi dito: amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelo que vos maltratam e perseguem” (Mt 6, 43-44).

Seu fundamento é o fato de sermos todos filhos do mesmo Pai, e, portanto, irmãos, de termos todos a mesma origem e a mesma natureza. Como ensina o filósofo e educador brasileiro Huberto Rohden em alguns de seus livros, a ética da fraternidade universal é fruto da mística da paternidade única de Deus.

No Novo Testamento, a igualdade de cada homem, em razão de seu valor intrínseco de filho de Deus, além de estar presente na vida de Jesus, é abordada diversas outras vezes. Pedro disse: “Em verdade, reconheço que Deus não faz distinção de pessoas” (At 10, 34). Paulo, em sua carta aos romanos, afirmou: “diante de Deus não há distinção de pessoas” (Rom 2, 11). Também Tiago ensina: “Se cumprirdes a lei régia da Escritura: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’, sem dúvida fazeis bem. Mas se vos deixais levar por distinção de pessoas, cometeis uma falta e sereis condenados pela lei como transgressores.” (Tg 2, 8-9).

Posto em prática, o ensinamento em questão revoluciona as relações humanas, tanto no plano inter-pessoal  quanto no social.

No plano inter-pessoal, deve extinguir o menosprezo e o preconceito contra aquele que é diferente de nós, em alguma característica secundária. Pois, no que mais importa, todos somos iguais, todos filhos do mesmo Pai. Diferenças de idade, cor da pele, sexo, religião, etnia, não significam superioridade de uns sobre outros.

No plano político-social, o tema ganhou relevância a partir da Revolução Francesa (1789), cujo lema foi: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Atualmente, tem-se por fundamento dos direitos humanos “a igual dignidade de todo homem em qualquer condição ou circunstância”.*

Ainda no campo político, a idéia de igualdade serve de base para a distinção entre direita e esquerda. Para Bobbio, enquanto a direita vê com naturalidade a desigualdade social, a esquerda a vê como algo a ser combatido e erradicado. 

Ante o atual sistema econômico-social brasileiro e mundial, em que há milhões de pessoas que morrem de fome e há comida jogada fora para controlar os preços, e em que o desemprego e, consequentemente, a miséria são elementos necessários (e não acidentais) do atual modo social de organização da produção, para controle da inflação e dos salários pagos aos trabalhadores, cabe ao cristão ouvir e deixar-se questionar pela mensagem do Evangelho, e buscar descobrir qual deve ser a sua resposta diante do apelo de Deus e do mundo. 

Ainda há muito que se mudar nas instituições e no sistema político-econômico. Mas não só isso, também há que se transformar os sentimentos. Para que liberdade, igualdade, fraternidade e respeito à dignidade humana se realizem, para sejam mais do que belas idéias, é preciso deixar que a palavra de Deus ultrapasse o nosso intelecto e atinja o nosso coração. Só com esta compreensão profunda é possível, pela mística, viver a ética, a nível pessoal e social. Só assim é possível viver, por amor a Deus, o amor aos irmãos, a começar pelos mais necessitados.

José Rodolfo Stuz Cunha - 23/04/2009

*COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. Página 307.

 

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