Entre os dias 29 e 31 de maio de 2009, na Escola Nacional Florestan Fernandes, um espaço nascido da solidariedade da classe trabalhadora do mundo, jovens das Pastorais da Juventude do Brasil das cinco regiões do país, junto com representantes do Setor Juventude, da Conferência dos Religiosos do Brasil, do Conselho Nacional do Laicato do Brasil, da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, da Rede Brasileira de Centros e Institutos de Juventude, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, da Via Campesina, da Revista Mundo Jovem e da Associação de Familiares e Amigos e Amigas dos Prisioneiros e Prisioneiras do Estado da Bahia – ASFAP/BA, reuniram-se no Seminário Nacional das Pastorais da Juventude do Brasil, construindo, em mutirão, a Campanha Nacional contra o Extermínio da Juventude, nascida na 15ª Assembléia Nacional das Pastorais da Juventude do Brasil com o lema: Juventude em Marcha, contra a violência.

Reafirmamos nosso compromisso com a vida da juventude, assumindo o desafio de colaborar com a construção da cultura da paz e denunciando as estruturas sociais que geram morte e violência. Nos inspiramos na mística revolucionária dos mártires da América Latina e do mundo, renovamos o compromisso com a dignidade humana, fortalecemos a esperança de um outro mundo possível e afirmamos que toda a vida tem o mesmo valor.

Fazemos memória de Djair de Jesus, 16 anos, morto pela PM do Estado da Bahia, na cidade de Salvador no ano de 2008, de Edson Luis,18 anos, morto pela ditadura militar na cidade do Rio de Janeiro em março de 1968, de Wilmar de Castro, jovem morto pelo latifúndio goiano por lutar pela Vida e organização Camponesa, de Cinthia Magalhães, 16 anos, seqüestrada, violentada sexualmente e morta na periferia de Manaus 2004, Rodrigo da Silva, 23 anos, militante da PJB, pobre e negro, morto pela homofobia em Cachoeira do Sul – RS em 2007, Clodoaldo Souza, “Negro Blul”, 23 anos, mártir da campanha “Reaja!”, morto por grupos paramilitares no estado da Bahia em 2007 e de tantas outras vidas, vítimas da violência, com os quais nos unimos, decidimos que vamos mudar essa história e que as nossas lágrimas regarão com esperança o chão da dura realidade para sempre sonhar com a utopia de uma sociedade justa e igual, ameaçando com dureza todo o poder que gera opressão.

Acreditamos numa sociedade sem racismo, sem machismo, sem sexismo e sem homofobia. Cremos no fim de todas as prisões, no fim de todas as formas de extermínio, na construção de outras formas de organização da sociedade e na utopia de um mundo sem oprimidos/as e sem opressores.

Temos como princípio o resgate da solidariedade, o diálogo com os movimentos sociais, a autonomia política frente as estruturas institucionais; a construção de um outro modelo de sociedade; o Seguimento de Jesus Cristo, libertador, parceiro dos pobres, Deus dos Oprimidos; a defesa da vida da juventude e a participação popular. Nos colocamos em marcha. Estamos em campanha contra o extermínio!

Guararema – SP, 31 de maio de 2009.

Pastorais da Juventude do Brasil
Pastoral da Juventude, Pastoral da Juventude Estudantil,
Pastoral da Juventude do Meio Popular e Pastoral da Juventude Rural

 
Servir 05/31/2009
 

Rabindranath Tagore

Dormía, y soñaba
que la vida era alegría.
Desperté, y vi
que la vida era servicio.
Serví, y vi
que el servicio era alegría.

 
Eu creio na alma 05/31/2009
 

Vinícius de Moraes

Eu creio na alma
Nau feita para as grandes travessias
Que vaga em qualquer mar e habita em qualquer porto
Eu creio na alma imensa
A alma dos grandes mistérios
A grande alma que em vão busquei sufocar
Eu creio na alma eterna
A alma boa, a alma pura, a alma singela
A alma que possui o espaço
A alma que não possui o tempo
A grande alma sozinha
Capaz de conter toda a humanidade
Senhor! Eu creio nela
Eu creio na minha alma extraordinária
Ela era como o templo
Onde os vendilhões mercadejavam
Ela expulsou os vendilhões, Senhor!
E os pássaros cantaram.
Eu creio na alma grande
Em busca dum élan que a lance sempre
Para o eterno movimento
A alma espelho das águas
Onde o céu reflete os pássaros que voam
Eu creio em ti, Senhor
Porque és a alma que é o céu onde os pássaros voam
E que se reflete no espelho das águas
Porque és a grande alma que paira
Eu creio em mim, Senhor
Porque sou alma feita à tua semelhante
Grande alma onipotente
Que no começo era o nada
O nada - vazio das almas
O nada cheio de treva e maldição
Mas o espírito erguia-se do caos
E a treva fez-se luz
A luz cheia de átomos de vida
A luz - a grande luz que sobe sempre.

 
 

Vinícius de Moraes

Minha mãe, diz a santa Teresa que quando eu morrer
Eu quero ir para o céu.
Fala com são Francisco também, providencia
Conta minha infância, quando como o tempo
Em que você falava com a gente uma porção de histórias
São Francisco é meu amigo, ele compreende
Santa Teresa é boazinha, ela sabe
Diz a eles que eu cantava antes de falar, que eu mentia
Que tinha visto Nossa Senhora para os garotos da Ilha e eles acreditavam
Para são Francisco você adota o tom simples
Para santa Teresa você adota o tom franco
Vai logo dizendo, fala que eu já li o Inferno de Dante
Que eu já sei como é e como já sei não preciso mais ir
Eles compreendem, eles são bonzinhos
Eles sabem que você está exagerando mas dão o desconto
Para são Francisco diz que eu sei cantar e que eu sou poeta
Para santa Teresa diz que eu sei umas anedotas de padre
Que a gente pode ficar conversando os três
Dando miolo de pão aos passarinhos
Fazendo improviso e graça com são Tomás de Aquino
Se for preciso diz francamente que eu não presto
Mas que eu quero ir pro céu
Que o purgatório é muito úmido, e o inferno
Tem Lucrécia e uma porção de mulheres para mexer comigo
Diz que eu me comporto, que eu só quero
É estar com eles falando poesia
Discutindo Rimbaud e tocando violão em noite de lua cheia
Não diz que eu sou formado, nem que eu sou laureado
Nem que vim pra Oxford, nem que trabalhei para o governo
Diz só que eu não quero perder minha poesia nem minha tristeza
Que eu quero ver meu amigo Rainer Maria Rilke
Que eu quero ficar deitado pensando enquanto eles rezam.

 
 

Frei Betto

"Aqui é Dom Helder. Está preso aí (na delegacia) o meu irmão" (um homem que estava sendo espancado). O policial levou um susto: "Seu irmão, eminência?". "É. Apesar da diferença de nomes, somos filhos do mesmo Pai..."

Dom Helder Câmara até ontem, como diz são Paulo na 1a. Carta aos Coríntios, conhecia Deus "como por um espelho, de modo confuso". Agora, conhece-O "face a face".

Meu primeiro contato com o "arcebispo vermelho" foi em 1961, quando eu era dirigente, em Minas, da Juventude Estudantil Católica e ele, bispo responsável pela Ação Católica Brasileira. No ano seguinte, levou-me para o Rio, para participar da direção nacional da JEC.

Convivemos durante três anos. Ele tinha seu escritório no palácio São Joaquim, no Largo da Glória. Do outro lado da praça, sob o Outeiro, ficava a sede da CNBB, da qual dom Helder foi o fundador e, por muitos anos, secretário-geral. As refeições, ele tomava num botequim da esquina, entre pedreiros e cachaceiros.

Na Igreja católica, foi o pioneiro do movimento renovador conhecido por "opção pelos pobres". Fundou a Cruzada São Sebastião, empenhado em sua utopia de erradicar as favelas cariocas. Não deu certo. Instalados em apartamentos, os favelados, instigados pela miséria, arrancavam torneiras, encanamentos e instalações elétricas para vender, e muitos sublocavam a moradia em busca de renda.

Dom Helder Câmara descobriu então que uma só andorinha não faz verão e que a pobreza não resulta da indolência, mas de "estruturas injustas", conforme faria constar, em 1968, no documento episcopal de Medellín.

Durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), o "bispo dos pobres" promoveu uma articulação entre cardeais e bispos de todo o mundo em favor da inserção da Igreja nos setores populares. Propôs ao papa João 23 entregar o Vaticano e suas obras de arte aos cuidados da UNESCO, como patrimônio cultural da humanidade, enquanto o papa passaria a morar, na qualidade de bispo de Roma, numa paróquia da capital italiana. Ele sonhava com uma Igreja menos imperial e mais parecida com a comunidade dos pescadores da Galiléia.

No Rio, dom Helder Câmara contava com o apoio de um grupo de leigos, homens e mulheres, conhecido como "a família messejanense" - referência à Messejana, distrito cearense no qual nasceu. A "família" teve o privilégio de receber, em forma de cartas, o diário do arcebispo durante o Concílio, onde ele narra, sem censura, os bastidores do conclave - documento de inestimável valor a ser divulgado após a sua morte.

Dom Helder nunca cedeu às pressões de quem pretendeu torná-lo, como JK, prefeito do Rio, senador e até presidente da República. Arcebispo de Olinda e Recife, jamais aceitou morar em palácio. Fez dos fundos de uma igreja sua casa e ali ele próprio atendia à porta a quem batia. Com certeza, nenhum brasileiro foi tão biografado. A maioria das obras é assinada por autores estrangeiros, embora ele tenha conseguido o milagre de ser profeta em sua própria terra.

Integralista na juventude, progressista na idade adulta, dom Helder sempre surpreendeu a quem quis enquadrá-lo em jargões. Sob a ditadura militar, dialogou com os generais que o censuravam na mídia e socorreu os perseguidos e os presos políticos na defesa intransigente dos direitos humanos.

Sua fama no exterior - entre brasileiros, só comparável à de Pelé - levou a Polícia Federal, sob o regime militar, a oferecer-lhe segurança. Brasília temia que ele sofresse um atentado. Dom Helder disse aos policiais: "Não preciso dos senhores. Já tenho quem cuida de minha segurança". Os agentes pediram os nomes. Precisavam de registro nos órgãos oficiais. O bispo não se fez de rogado: "São o Pai, o Filho e o Espírito Santo".

Certa noite familiares aflitos procuraram dom Helder. Um homem tinha sido preso e estava sendo espancado na delegacia. O prelado ligou para o delegado: "Aqui é dom Helder. Está preso aí o meu irmão". O policial levou um susto: "Seu irmão, eminência?" Dom Helder explicou: "Apesar da diferença de nomes, somos filhos do mesmo pai". O delegado desmanchou-se em desculpas e mandou soltar o preso irmão do arcebispo. Filhos do mesmo Pai...

Assim era dom Helder, um homem evangélico, simples, sem firulas episcopais. E como tinha muita fé, jamais conheceu o medo. E amou de todo o coração essa Igreja que tanto quis ver renovada e, no entanto, jamais concedeu-lhe o merecido título de cardeal.

Faltou este homem na galeria do Prêmio Nobel da Paz. Com certeza o futuro cumprirá a justiça de entronizá-lo entre aqueles que são venerados como santos.

Fonte: DHNET (acesso em 07/02/2009)

 
 

Ivo Lesbaupin*

Minha vivência cristã é marcada pela experiência da Juventude Estudantil Católica (JEC), onde ingressei por volta dos 14 anos (1960/61). É preciso lembrar o contexto histórico: estes foram anos de muita efervescência na política brasileira. Era a época da campanha pelas reformas de base, das quais a mais importante era a reforma agrária. Desde 1955, vinha crescendo o movimento das Ligas Camponesas. Na área urbana, era intensa a mobilização operária, com muitas greves - seja por motivos econômicos, seja políticos. A direção da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) - liderada por Dom Hélder Câmara - tomava posição a favor dos pobres, dos trabalhadores (numa Igreja católica ainda majoritariamente conservadora). A JEC, seguindo os passos da Juventude Universitária Católica (JUC), despertou para a justiça social, para a questão da pobreza e da miséria no Brasil.

Esta experiência na JEC até hoje tem um peso enorme na minha fé cristã. A concepção que aí aprendemos foi a de um cristianismo encarnado, engajado, comprometido com os pobres, com o povo. Uma fé que significa fidelidade a Jesus Cristo, uma fé que implica ação e ação social e política. Aprendemos que ser cristão significa amar os outros e vivemos esta prática do desprendimento, da dedicação, com o ardor de que os jovens são capazes. Fé e política estiveram, desde o início, unidas para nós: a exigência da política, do grande serviço aos outros, nascia da fé. Houve também os conflitos internos na Igreja: os bispos conservadores se opunham a este engajamento dos leigos na política numa perspectiva de justiça social (aceitavam de bom grado, porém, o engajamento pela manutenção do status quo). O conflito acabou provocando uma ruptura: em 1966, a JUC foi inviabilizada pela hierarquia.

Em 1965 entrei para a Ordem dos Dominicanos. Tinha tido um contato mais próximo com os frades na JEC. Frei Emmanuel, o Manú, era assistente da equipe nacional de JEC feminina. Frei Romeu era assistente da JUC do Rio e Frei Mateus Rocha, inspirador de muitos militantes da JEC e da JUC de Belo Horizonte, tinha escrito o livro “JEC - o Evangelho no colégio”. Era a Ordem que, a nosso ver, era mais engajada na problemática social - é só lembrar do “Brasil Urgente”, dirigido por Frei Carlos Josaphat em São Paulo - e ao mesmo tempo mais sensível aos problemas e às inquietações dos jovens.

No grupo de doze jovens que entrou no noviciado este ano, metade vinha da JEC, de vários lugares do Brasil, entre os quais o Betto. No noviciado, lembro de uma visita ilustre: Richard Shaull, teólogo protestante, autor do livro Teologia da Revolução, que foi o primeiro nesta linha de reflexão, visitou o convento e nós pudemos conversar com ele.

Depois do noviciado em Belo Horizonte, fomos fazer filosofia no estudantado em São Paulo: em 1966, ainda no convento; a partir de 1967, no Instituto de Filosofia e Teologia (IFT) e um ou outro curso livre na Filosofia da Universidade de São Paulo (USP). Foi por esta época, já em 1968, que começamos a nos organizar num pequeno grupo de frades - só um era ordenado, Fernando, os outros todos estudantes - que ajudava a esconder pessoas procuradas pela polícia em razão de atividades “subversivas”. Escondíamos alguns dias na cidade e, depois, encaminhávamos para a saída pelo Sul do Brasil. Isto parecia para nós a realização de um antigo ideal - a revolução, a transformação radical da realidade social e política do país em direção a um futuro mais justo. E este futuro nos parecia próximo.

Não demorou muito para percebermos e sentirmos a dura realidade da repressão. Em novembro de 1969, fomos presos. Passamos pelo mesmo tratamento que passaram todos os que foram presos depois do AI-5 (Ato Institucional n. 5, de 13 de dezembro de 1968): a tortura. Esta prática, que tinha sido eventual antes de 1969, tornou-se sistemática. Esta experiência desde os primeiros dias lançou uma nova luz sobre o Evangelho: a cruz, a perseguição, o sofrimento - que sempre nos tinham parecido traços de uma história antiga e com uma conotação mais moral que real para a época contemporânea - agora se tornavam realidade. Não eram coisas do passado, não eram apenas reservadas a Jesus e aos primeiros cristãos. Curiosamente, o único livro que nos foi permitido naqueles dias na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), foi a Bíblia. E como nos ajudou!

As paredes da cela continham várias frases escritas por alguns dos companheiros que nos haviam precedido. Lembro-me particularmente de duas, que me marcaram muito:

“Neste punhado de homens que não têm outra alternativa senão a morte ou a vitória, onde a morte é um conceito mil vezes presente e onde a vitória é um mito que somente um revolucionário ousa sonhar” - Che Guevara.

Heb 9, 22: “Sem derramamento de sangue, não há redenção”.

Depois de quase um mês na DOPS, fomos transferidos para o Presídio Tiradentes, para onde iam os presos políticos depois da fase de interrogatórios. Ficamos quase um ano numa mesma cela, a cela 7, a maior deste pavilhão (o Presídio tinha sido construído ainda no tempo da escravidão, em 1851), na qual havia cerca de 45 presos. Foi um tempo muito tenso, muitas prisões ocorrendo, muita gente chegando, saindo, sendo transferida. O que nos marcou mais neste período foi a convivência entre cristãos - um pequeno grupo - e marxistas - a grande maioria. Em primeiro lugar, os testemunhos de amor, de solidariedade, dados por companheiros marxistas ou ateus. Certa vez, conversei mais de uma hora com um destes companheiros, que me falou sobre o amor, o amor aos outros, ao povo. Nunca pensara que poderia receber lições sobre o amor de um ateu.

Além disso, há um outro elemento: o preso político, assim que entra na cadeia, já se organiza! Você vê: os presos comuns, tem um chefão que manda! Preso político entrou, já organiza o coletivo! O coletivo, se é um grupo grande, formam-se vários pequenos grupos. Nós éramos 45-50, nos organizamos em 9 grupos de 5. Cada dia um dos grupos se encarregava da limpeza toda da cela, de fazer a comida, e assim por diante. Nessa época, a gente recebia os alimentos e fazia a comida na própria cela. E enquanto esse grupo se ocupava da arrumação da cela e da alimentação, os outros oito grupos se reuniam de manhã para estudar. Estudar o que? Naquela época, livros sobre temáticas políticas eram absolutamente proibidos. Então, entravam livros didáticos, de História, Geografia, e a gente distribuía 8 livros entre os 8 grupos. Cada grupo lia um livro e ficava estudando por duas horas. Depois, à tarde, a gente começava a fazer trabalhos manuais.  Era uma cela que era uma síntese da sociedade, porque tinha desde operários de fábrica, camponeses, até médicos - havia 3 médicos na nossa cela; havia também grandes intelectuais; passou alguns dias entre nós o Caio Prado Júnior, o Jacó Gorender estava nesse pavilhão – aliás, nos deu aulas de marxismo (para os cristãos) – e estavam presentes as principais lideranças das organizações revolucionárias dessa época – Ação Libertadora Nacional, Ala Vermelha, PcdoB, etc.

Tivemos uma experiência interessante porque, nos primeiros dias, com aquele clima tenso, todo mundo vindo da DOPS, ou da Operação Bandeirantes (OBAN), a gente fez uma missa (tinha uma padre entre nós – Frei Fernando). Fizemos uma missa e os ateus assistiram, acho que mais por respeito a nós. Mas também era bom para produzir uma espécie de congraçamento. E, pouco a pouco, nós fomos fazendo, a cada domingo, uma celebração. O domingo, apesar de estarmos na prisão, era um dia diferente: não era igual aos outros dias. E domingo à tarde, a gente fazia esta celebração - não chegava a ser missa: tomávamos um texto da Bíblia, um texto de algum poeta, Pablo Neruda, por exemplo, líamos e fazíamos reflexões, com todos participando.

Essa celebração que, no início, éramos só nós e os outros assistiam, pouco a pouco se tornou uma celebração da cela. E houve uma coisa curiosa: alguns meses depois, nós achamos que talvez estivéssemos criando uma situação constrangedora, forçando os outros a assistirem algo de que não gostavam. Pensamos: “nós somos cristãos, estamos fazendo celebração, mas talvez os marxistas não queiram; a gente está meio obrigando eles a participar sem querer, é melhor a gente suspender”. Suspendemos a celebração. Falamos com a liderança da cela: “nós vamos fazer só entre nós, para não atrapalhar vocês”. Aí houve uma reunião da direção do coletivo, que veio se reunir com a direção dos cristãos, e nos disseram: “olha, quando vocês começaram as celebrações, era de vocês; mas agora, não, ela não é mais de vocês apenas, a celebração é da cela toda, e é absolutamente fundamental, o coletivo exige que as celebrações continuem”. E por que eles achavam importante? Eu acho que é porque, no fundo, essas celebrações semanais ajudavam a manter o moral, já que a vida na prisão corre o risco de ficar monótona, todo dia a mesma coisa, então essa celebração ajudava a dar firmeza ao grupo.

Na verdade, eram celebrações profanas, o esquema da liturgia era mais ou menos aquele conhecido - leitura de texto, reflexão - mas já tinha se transformado, a pessoa não precisava ser cristã para participar dela. A gente lia algum texto que falasse sobre a vida e refletia. As reflexões, como eram coletivas, demoravam umas duas horas e, no final, a gente fazia uma partilha: a gente tinha biscoitos e Ki-Suco (Ki-Suco era um suco artificial dessa época) e passava esse Ki-Suco entre todos, como símbolo da comunhão. Era uma celebração macro-ecumênica.

Nós tivemos, inclusive, um dia – nós só ajudamos do ponto de vista ritual – uma Celebração dos Mártires; aí participou o pavilhão todo. Nós tínhamos as janelas das celas que se voltavam para dentro e a gente podia mais ou menos ver as janelas, as portas das outras celas, e a partir dessas portas e janelas, no pavilhão todo, se fez uma Celebração dos Mártires da Revolução. Então todos os que tinham morrido nesse período, seja na rua, seja nas prisões, foram lembrados. Foi uma verdadeira celebração dos mártires feita por um presídio onde 90-95% eram marxistas. E foi impressionante essa celebração feita por gente acredita também num outro mundo – num outro mundo não, numa nova vida – num novo mundo criado a partir deste aqui. Esta convivência com os marxistas foi para nós um experiência muito importante.

Na prisão, presenciamos muitos testemunhos de confissão e de martírio: desde Jeová, jovem que vimos na DOPS chegar carregado dos interrogatórios, mas com moral alta; até a segunda tortura de Frei Tito, em fevereiro de 1970 na OBAN (a primeira tinha sido em novembro, na DOPS). Tito foi torturado barbaramente durante três dias por três equipes distintas da Operação Bandeirantes. Não cedeu a seus torturadores. Ao 3o. dia, tentou o suicídio, o que o levou ao hospital militar. Uma semana depois, voltou ao Presídio, onde ainda chegou com marcas evidentes dos suplícios a que fora submetido. Ele subiu as escadas do Presídio sob forte ovação dos companheiros. Foi a recepção mais calorosa a que assistimos: ele saíra alguns dias antes como preso, voltava como herói.

Cabe lembrar também o testemunho de homens de Igreja que nos marcaram neste período e a postura diferenciada de dois arcebispos de São Paulo. Quando chegamos ao Tiradentes, passados alguns dias, recebemos a visita de Dom Agnello Rossi. Reunidos numa sala, na presença do diretor do Presídio, ele nos interrogou sobre o que tínhamos feito para ser presos. Menos de um ano depois, logo após sua nomeação para o arcebispado de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns nos visitou, ainda antes de sua posse. E disse estar fazendo isto para manifestar sua solidariedade a seus irmãos presos. A diferença entre as duas atitudes não poderia ser maior. Sentíamos que estávamos recebendo a visita de um pastor.

Depois de dois anos e meio no Tiradentes, uma greve de fome nos levou à Penitenciária do Estado - uma semana -, ao Carandirú - três semanas - e, finalmente, à Penitenciária Regional de Presidente Wenceslau - onde ficamos o ano e meio que faltava para completar nossa pena. Foi um período muito rico de convivência com os presos comuns. Mas contar esta experiência exigiria muito mais tempo do que disponho agora.

*O professor Lesbaupin dá aulas na UFRJ e é membro da coordenação do Iser Assessoria e sócio da Adital. Ele possui graduação em Filosofia, mestrado em Sociologia e doutorado em Sociologia pela Universidade de Toulouse-Le-Mirail, França.

Fonte: CESE (disponível em  17/07/2007)

 
 

Charles Taylor
Tradução: Moisés Sbardelotto


É surpreendente, mas as ciências sociais, de resto nascidas secularizadas, foram até agora cegas e surdas frente aos valores espirituais. Salta aos olhos a total indiferença que não poucos filósofos, sociólogos e historiadores reservam à dimensão do espírito. As consequências desse desinteresse são pesadas no nível da imprensa e da opinião pública, especialmente a culta. Mas não é suficiente que, ao redor da religião, tenha sido criada intencionalmente uma cortina de indiferença e de ignorância; assim, a fé se torna objeto de contínuos ataques. É significativa a frase do Nobel Steven Weinberg, que além do mais é um cosmólogo e não um sociólogo: “Há pessoas boas que fazem coisas boas, e pessoas ruins que fazem coisas ruins, mas, se quiserem encontrar pessoas boas que façam coisas ruins, voltem-se para a religião”. Em alguns países, essa frase se tornou quase um provérbio e é repetida pela imprensa e nos bares. É impressionante que um homem como Weinberg se saia com tal frase, um homem que viveu grande parte da sua vida em um século, o XX, que conheceu os regimes mais opressivos da história. É essa objeção que eu utilizo logo que alguém se sai com a frase de Weinberg. E obtenho, invariavelmente, a seguinte resposta: “Mas o comunismo era uma religião!”. Em síntese, para alguns, a palavra “religião” se tornou sinônimo de irracionalidade e até mesmo de assassínio.

Na prática, há quem entenda por “religião” um complexo de crenças que pode induzir pessoas boas e pacíficas (que não matariam nem uma mosca, sei lá, para conseguir um ganho pessoal) a se transformar em assassinas por uma “causa”. Um modo de pensar bastante rústico, esse. Ao qual se coloca uma outra objeção ainda: Hitler, Stalin, Pol Pot, Mao etc. eram todos inimigos da religião. O outro efeito negativo da mentalidade antirreligiosa é o atraso com o qual o verdadeiro problema da violência que cresce nas nossas sociedades é enfrentado. Ninguém está imune ao risco de ser arrancado da própria vida tranquila e recrutado na violência de grupo. Está na espreita a tentação de assumir como um alvo um outro grupo social e de considerá-lo responsável por todos os nossos males. Ora, a tarefa urgente é entender o que leva grupos inteiros de pessoas a se sentirem prontos para ser cooptados em um projeto do gênero.

Mas temos uma abordagem imperfeita sobre esse problema. Grandes escritores como Fëdor Dostoevskij iluminaram a origem da violência e do delito, que, porém, ainda permanece envolvida no mistério. E é incompleto o conhecimento que temos acerca do caminho seguido por personagens dotados de carisma espiritual, como Gandhi, para convencer as massas a repudiar a violência, parando-as justamente quando estavam por ultrapassar a linha de não retorno. Sem intervenção de autoridades espirituais, frequentemente os esforços melhor intencionados também não conseguem impedir que a história se faça “sobre a mesa do açougueiro”, como disse Hegel. E dá calafrios pensar que Robespierre votou contra a pena de morte nas primeiras discussões sobre a Constituição republicana.

Recentemente, trabalhei para compreender quais são hoje os significados e as implicações do termo “secularização”. Durante muito tempo, a sociologia considerou esse processo como inevitável. Algumas características da modernidade – o desenvolvimento econômico, a urbanização, a mobilidade em contínuo aumento, o nível cultural mais alto – eram vistas como fatores que teriam provocado um inevitável declínio da crença e da prática religiosa. Era a famosa “tese da secularização” e, durante muito tempo, dominou o pensamento nas ciências sociais e nos estudos históricos. Essa convicção foi abalada por acontecimentos recentes. A religião reagiu à modernização, respondeu ao desafio demonstrando a própria vitalidade. Em todo o caso, porém, a religião se tornou a base para uma mobilização política e o fenômeno é inclusive ameaçador, dadas as proporções que assumiu. É hora de conhecer a fundo essa dinâmica, os benefícios e os malefícios que comporta, ver claramente em um mundo que a velha teoria da secularização ainda esconde à vista. A incapacidade de distinguir a dimensão espiritual da vida humana nos torna incapazes de explorar temas vitais. Então, trata-se de reportar a espiritualidade ao centro e em domínios abertos em que descobertas decisivas são possíveis.

No mundo secularizado, ocorreu que as pessoas se esqueceram das respostas às principais perguntas sobre a vida. Mas o pior é que se esqueceram também das perguntas. Os seres humanos – que o admitem ou não – vivem em um espaço definido por perguntas profundas. Qual é o sentido da vida? Existem modos de vida melhor e piores, mas como são reconhecidos? Quais são os modos úteis para o indivíduo e para a comunidade à qual pertence? Qual é o fundamento da minha dignidade pessoal, que eu procuro defender por mim mesmo, a cada dia? As pessoas têm fome de respostas para todas as questões e, se se dão conta ou não, sentem a necessidade de vê-las resolvidas por qualquer um. Haverá quem considere errada ou absurda a minha ideia. Eu estou certo de que é fundamentada.

Fala-se de “descoberta do espírito”, em analogia com as descobertas que ocorrem na biologia, física e química. Mas é mais exato falar de “redescoberta do espírito”: o homem tem uma excepcional capacidade de se esquecer de coisas que conhecera e depositara no profundo do coração. Os filósofos, a partir de Platão, analisaram essa característica humana. Heidegger fala, a propósito, de “esquecimento do ser”. Eu penso que o homem desliza em uma “desmemória do ser”. Creio que caímos em um tipo especial de esquecimento. Em todo o caso, o mundo moderno se funda sobre uma cadeia bem precisa de desmemórias.

Uma das regras principais do saber humano é tirar para fora as respostas inarticuladas que as pessoas se dão na vida. Por isso, temos necessidade de um novo conhecimento da razão. Não se trata simplesmente de se mover com procedimento dedutivo por meio de um argumento. É necessário também saber trazer à superfície aqueles valores vividos profundamente pelas pessoas, isto é, articulá-los, dar voz a eles. Penso que é muito perigoso esquecer os valores, porque novidades positivas diversas emergiram no nosso tempo, enquanto o povo respondera, de um certo modo, às perguntas que as novidades pressupunham. Boa parte da violência ocorrida no nosso mundo provém do fato de que os jovens são recrutados por causas que os transformam em horríveis robôs assassinos. Quem os recruta é uma oferta que promete dar um conteúdo às suas vidas. Estão sem trabalho, sentem-se sem futuro, não têm (não podem ter) o sentido da dignidade. Sim, deram uma resposta a uma pergunta. Uma resposta extremamente destrutiva, porque autodestrutiva. E nós estaremos desesperados, se não conseguirmos recomendar-lhes, em tempo útil, uma resposta diferente.

Fonte: Corriere della Sera (15/01/2009)
Tradução:
IHU (23/01/2009)

 
 

Arnaldo Zenteno S.J.*
Tradução: ADITAL


Nos causa alegria recordar seu testemunho; porém, o que ele significa hoje para nós?

Monsenhor Romero foi assassinado no dia 24 de março, há 29 anos, em El Salvador. No dia 25 de março, enquanto eram celebrados seus funerais na Catedral de lá, aqui na Nicarágua era promovida uma celebração massiva pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN); celebramos uma eucaristia na Plaza de la Revolución, junto à antiga Catedral de Manágua. Mons. Obando, na época Arcebispo de Manágua, presidiu a eucaristia e concelebramos mais de 40 sacerdotes, entre eles o Pe. Astor, salvadorenho, que havia colaborado estreitamente com Mons. Romero. No final da missa, foi lida uma breve mensagem do FSLN na qual Mons. Romero era reconhecido como testemunha fiel, como exemplo claro de bispo e sacerdote comprometido com o povo. A praça lotada e a concelebração de tantos sacerdotes eram um testemunho claro de como sua vida e sua entrega estavam presentes e vivas também aqui na Nicarágua. E hoje, como ele está presente?

Dois ou três anos antes de seu martírio, a vida e as palavras de Mons. Romero eram luz, interpelação e fortaleza não somente em El Salvador, mas também em toda América Central e México. Suas valentes e proféticas homilias eram retransmitidas e escutadas em todos os países da região. Na Conferência Episcopal Latinoamericana em Puebla (1979) ele deu um tremendo testemunho-denúncia sobre os massacres sofridos pelo povo e sobre seu compromisso com o processo de libertação e contra toda injustiça. Juntamente com a alegria de seu testemunho, sentíamos forte preocupação diante das ameaças de morte por ele recebidas. Ele respondia: "Não creio na morte sem ressurreição. Não creio merecer a graça do Martírio; porém, se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho".

Isso aconteceu em 1980. Porém, que vigência têm sua mensagem e suas palavras para nós hoje, na Nicarágua. Por isso, quero recordar que em 1979, pouco depois do triunfo da revolução, Mons. Romero, em sua homilia dominical, deu uma mensagem clara e partilhou conosco seus sonhos por essa nova Nicarágua que ia nascendo. Essas são suas palavras: "E nossa primeira saudação nessa manhã é para nossa querida irmã República de Nicarágua; nossa saudação com sentido de oração fraterna e de solidariedade porque hoje mais do que nunca necessita esse apoio espiritual. O início dessa libertação nos dá muita alegria, mas também nos preocupa que esse alvorecer de libertação não vá ser uma frustração. O senhor foi bondoso e que Ele possa continuar sendo a inspiração desse querido povo nicaraguense.

Necessita também nessa inspiração cristã levar em consideração o quanto custou esse momento: mais de 25.000 mortos...; não se pode desconsiderar isso. Apesar de que a guerra já terminou, as consequências serão profundas e de longo alcance. Essa mesma figura (de ovelhas sem pastor) a trasladamos também para nós: nosso povo dá essa impressão; porém, está como um rebanho que busca a solução de seus problemas e encontra na mensagem evangélica de hoje uma resposta para suas esperanças".

Mons. Romero tinha frases muito fortes que continuam nos sacudindo. Vejamos algumas de suas chamadas à nossa consciência:

"Quem não ama, não deve chamar-se cristão".
"Um cristão que se solidariza com a parte opressora não é verdadeiro cristão".
"É inconcebível que alguém se considere cristão e não tome, como Cristo, a opção preferencial pelos pobres".
"Nenhum cristão deve dizer: ‘não me meto; não me comprometo’, porque seria mal cristão e mal cidadão".
"Igreja que não se une aos pobres não é verdadeira igreja de Cristo".
"Quanta gente melhor não se identifica como cristãos, porque não tem fé, tem mais fé em seu dinheiro. O rico que está de joelhos frente ao seu dinheiro, mesmo que vá à Missa, é um idólatra e não um cristão".

Devemos perguntar-nos: qual o significado dessas frases hoje para nós? Dizê-las e repeti-las é fácil, e podemos até admirá-las. Porém, o importante é vivê-las como fez Mons. Romero, que as assinou com seu próprio sangue.

Quero terminar essa recordação viva de Mons. Romero com dois parágrafos de suas homilias que, creio, têm valor para nós hoje em dia:

"Não estar à margem dos acontecimentos políticos. Faço um chamado ao setor não organizado que até agora tem se mantido à margem dos acontecimentos políticos, porém está padecendo suas consequências, para que atuem em favor da Justiça e não continuem passivos por temer os riscos pessoais que toda ação audaz e verdadeiramente eficaz implica. Do contrário, serão também responsáveis pela injustiça e por suas consequências" (20 de janeiro de 1980).

"A Igreja -repetimos- não está identificada com nenhuma opção concreta política (partidária), mas apóia o que nela existe de justo, e está sempre disposta a denunciar o que exista de injusto. Não deixará de ser voz dos que não têm voz, enquanto existam oprimidos e marginalizados" (20 de maio de 1979).

"Não existe pecado mais diabólico do que tirar o pão de quem tem fome" (24 de fevereiro de 1980).

"Oração verdadeira. Por isso insisto: muita oração. Oremos; porém, não com uma oração que nos aliene; não com uma oração que nos leva a fugir da realidade. Jamais devemos ir à Igreja fugindo de nossos deveres na terra. Vamos à Igreja para ganhar forças e clareza para cumprir melhor nossos deveres em casa, na política, na organização. Esses são os verdadeiros libertadores" (11 de novembro de 1979).

E as seguintes palavras podem servir como um chamado a uma autêntica celebração de Mons. Romero: "O cristão que não queira viver esse compromisso de Solidariedade com o Pobre, não é digno de chamar-se cristão" (17 de fevereiro de 1980).

*Del Equipo de Servicios CNP. Comunidades Eclesiales de Base de Nicaragua

Fonte: Adital (24/03/2009)

 

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